Estudo dos efeitos da substituição hormonal estrogênica sobre a capacidade física de camundongos fêmeas cross-sex
Mulheres Transgênero no Esporte, Terapia Hormonal de Afirmação de Gênero (THAG), Capacidade Física, Dismorfismo Sexual, Modelo Animal.
A participação de mulheres transgênero em esportes de elite é um debate complexo centrado nas diferenças biológicas, como massa muscular e densidade óssea, acentuadas pela exposição à testosterona póspuberdade em indivíduos designados como masculinos. Organizações como o Comitê Olímpico Internacional (COI) buscam o equilíbrio entre inclusão e justiça competitiva, estabelecendo limites hormonais para atletas trans. Este estudo buscou preencher uma lacuna de pesquisa investigando, em um modelo animal, os efeitos da terapia hormonal de afirmação de gênero (THAG) na capacidade física, visando subsidiar a discussão sobre a igualdade de condições biológicas para competir. Utilizando camundongos machos castrados e submetidos à reposição de estrogênio (grupo cross-sex), comparamos seu desempenho a camundongos machos e fêmeas cisgênero. O protocolo hormonal foi eficaz, reduzindo drasticamente a testosterona e o aumento dos níveis plasmáticos de estradiol no grupo cross-sex. Após um treinamento intervalado de alta intensidade por oito semanas, o grupo cross-sex exercitado demonstrou uma desvantagem substancial na performance de resistência física, com o menor incremento percentual na capacidade no grupo cross-sex exercitado, que registrou o menor incremento percentual na capacidade de resistência (59%) e a menor distância percorrida, comparado aos grupos cis e hipogonádicos treinados. Essa disparidade foi refletida morfologicamente: o músculo gastrocnêmio (contração rápida) dos machos cis exercitados permaneceu significativamente mais pesado que o do grupo cross-sex, indicando a persistência de uma vantagem anabólica prévia. Embora a reposição de estradiol tenha revertido o acúmulo de tecido adiposo branco visceral (WATV) em machos hipogonádicos, a análise histomorfométrica detectou resistência morfológica celular de curto prazo no tecido adiposo. Em nível molecular, o tratamento induziu uma "feminização funcional" tecido-específica. O tecido adiposo marrom (BAT) e o músculo gastrocnêmio mostraram remodelação oxidativa bem-sucedida, com o aumento de fibras musculares lentas (Myh7) semelhante ao padrão das fêmeas cis. No entanto, a THAG em camundongos machos (cross-sex), via castração e reposição de estradiol, induziu uma notável feminização molecular funcional no BAT e no músculo gastrocnêmio. No BAT, o tratamento demonstrou sucesso na remodelação oxidativa e energética. A expressão de genes mitocondriais essenciais, como ATPmc3 e Cox7a2, e do gene de defesa antioxidante Sod1, foi significativamente aumentada no grupo cross-sex, atingindo níveis similares do padrão fisiológico de Fêmeas Cis. Este achado sugere uma conversão funcional completa do metabolismo no tecido adiposo. No músculo gastrocnêmio (contração rápida), o tratamento também foi bem-sucedido na remodelação do perfil de fibra muscular: a expressão do gene Myh7 (característica de fibras lentas/oxidativas) aumentou significativamente, indicando uma transição para um fenótipo muscular mais oxidativo. No entanto, a THAG revelou resistência na regulação mitocondrial do músculo. A expressão de ATPmc3 no grupo cross-sex diferiu significativamente do padrão das Fêmeas Cis. Além disso, marcadores de biogênese mitocondrial total, como Cs, mantiveram níveis de expressão semelhantes aos dos Machos Cis. Em suma, a THAG alcançou uma femininização funcional em diversos genes metabólicos, mas encontrou barreiras biológicas na conversão estrutural completa do músculo, estabelecendo um perfil molecular único.