Memória de reconhecimento em macacos-prego (Sapajus spp.): um estudo comparativo entre indivíduos adultos e idosos.
“macaco-prego; memória de reconhecimento; adulto; idoso; envelhecimento"
“A memória de reconhecimento refere-se à capacidade de discernir se um estímulo já foi visto anteriormente ou não, sendo importante para o planejamento de comportamentos adaptativos. É um tipo de memória significativamente impactado no envelhecimento, apresentando déficits importantes em pacientes com demência. Contudo, mais estudos se fazem necessário para uma melhor compreensão quanto a uma possível falha na memória de reconhecimento decorrente do processo natural de envelhecimento. Uma forma comum de medir a memória de reconhecimento atualmente é utilizando o teste de Reconhecimento Espontâneo de Objetos (REO) e as suas variações, como o Reconhecimento Objeto-Lugar (ROL). Esses testes tipicamente empregados em roedores foram recentemente adaptados para primatas não-humanos, os quais apresentam grande potencial como um modelo mais translacional. O objetivo do presente estudo foi comparar a memória de reconhecimento de indivíduos adultos e idosos de macacos-prego (Sapajus spp.) usando os testes de REO e ROL com diferentes intervalos de retenção. Para isso, cada sujeito foi submetido, individualmente e em seu próprio viveiro de moradia, ao teste de REO e depois ao teste de ROL. Cada teste compreendeu em uma sessão treino de 5 min, um intervalo de retenção (IR 10 min, 6 h ou 24 h) e uma sessão teste de 5 min. Desta forma, cada sujeito foi submetido a três testes de REO e três testes de ROL, um teste para cada intervalo de retenção. Para o teste de REO, duas cópias idênticas de um mesmo objeto foram apresentadas ao sujeito na sessão treino, enquanto na sessão teste somente uma das cópias foi reapresentada junto com um objeto desconhecido. Para o teste de ROL, duas cópias idênticas de um mesmo objeto foram apresentadas ao sujeito em ambas as sessões, mas na sessão teste uma das cópias foi posicionada em um local diferente ao visto na sessão treino. No teste de REO, tanto os indivíduos adultos e idosos demonstraram uma memória de reconhecimento após os IR 10 min e 24 h, mas não após 6 h. Na sessão teste, os adultos passaram mais tempo explorando o objeto novo em detrimento do familiar após os IR 10 min e 24 h. Contudo, os idosos passaram mais tempo explorando o objeto familiar do que o novo após o IR 10 min e exploraram por mais tempo o objeto novo ao invés do familiar após o IR 24 h. O desempenho dos sujeitos no teste não estava correlacionado ao tempo de exploração na sessão treino, ao tempo de locomoção na sessão teste ou a idade do sujeito (no caso dos idosos). No teste de ROL, uma memória de reconhecimento foi detectada apenas para os adultos após o IR 10 min, onde passaram mais tempo explorando o objeto novo em detrimento do familiar durante a sessão teste. O desempenho dos macacos-prego nesse teste não estava relacionado ao tempo de exploração na sessão treino ou a idade do sujeito, no caso dos idosos, mas foi detectada uma correlação negativa entre o desempenho no teste e o tempo de locomoção na sessão teste após os IR 10 min e 6 h. Em ambos os testes de memória, a exploração total e a locomoção permaneceram constante entre as sessões treino e teste. Portanto, macacos-prego idoso não demonstram a mesma capacidade de memória de reconhecimento que indivíduos adultos. Aspectos como a complexidade do teste (REO vs. ROL) e o intervalo de retenção (curto prazo vs. longo prazo; p.ex., 10 min, 6 h e 24 h), além de fatores como o estresse, parecem influenciar diferentemente a memória de reconhecimento de macacos-prego adultos e idosos.