A TRANSFORMAÇÃO SILENCIOSA DAS PRÁTICAS DELIBERATIVAS DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA: UMA ANÁLISE EMPÍRICA DA AMPLIAÇÃO DO JULGAMENTO EM AMBIENTE ELETRÔNICO ASSÍNCRONO
Superior Tribunal de Justiça. Julgamento virtual. Ambiente eletrônico assíncrono. Deliberação. Colegialidade. Precedentes. Pesquisa empírica em direito.
Esta dissertação examina as transformações produzidas nas práticas deliberativas do Superior Tribunal de Justiça pela ampliação do julgamento em ambiente eletrônico assíncrono, promovida pela Emenda Regimental n. 45/2024, que suprimiu a delimitação por classe processual até então vigente e admitiu ao ambiente virtual o recurso especial e o agravo em recurso especial. Parte-se da premissa, desenvolvida a partir da crítica à discricionariedade judicial e da teoria da deliberação nos tribunais, de que a qualidade da prestação jurisdicional depende das condições materiais do procedimento que a produz, e de que colegialidade e deliberação não decorrem da simples composição plural do órgão julgador. Reconstitui-se o percurso normativo do instituto, desde sua criação no Supremo Tribunal Federal até sua generalização pela Resolução CNJ n. 591/2024, confrontando os três desenhos para identificar o que o Superior Tribunal de Justiça reproduziu, omitiu e acrescentou. A pesquisa empírica acompanhou, ao longo do primeiro semestre de 2026, as sessões das Terceira e Quarta Turmas: foram levantados 64.845 processos submetidos a trinta e quatro sessões virtuais e fichados individualmente 380 processos deliberados em sessões presenciais, cujas transcrições integrais também compuseram o material analisado. Os resultados indicam que os institutos pelos quais um julgamento colegiado deixa de ser mera apuração de votos — o destaque, o pedido de vista e a divergência — operam, no ambiente assíncrono, em ordens de grandeza incomparáveis às observadas no ambiente presencial, presencial, e que a triagem que o desenho normativo confia ao relator não é empiricamente observável.