O COLORIDO DOS ENCONTROS E O CINZA DOS CAMINHOS: caminhabilidade e a lógica de apropriação das redes de caminhos de pedestres em Brasília, DF
caminhabilidade; Sintaxe Espacial; Sintaxe do Lugar; Capital Espacial; Brasília; desigualdade socioespacial
Esta tese investiga a caminhabilidade na área central de Brasília, Distrito Federal, especialmente no entorno da Rodoviária do Plano Piloto, compreendendo-a como condição socioespacial relacional, e não como atributo exclusivamente físico do ambiente construído. Parte-se da premissa de que caminhar depende da articulação entre estrutura espacial, qualidade material dos percursos, tempo de deslocamento, acesso a oportunidades urbanas e capitais mobilizados pelos sujeitos. A pesquisa articula a Teoria da Sintaxe Espacial (TSE), a Sintaxe do Lugar (Place Syntax) e a teoria dos capitais de Bourdieu, ampliada pelos debates sobre Capital Espacial proposto por Marcus e Capital Espacial Fluxos (CAflu), proposto por Holanda e desenvolvido por Holanda e Kronenberger. Metodologicamente, adota-se abordagem mista, composta por modelagem configuracional da rede pedonal, com NAIN e NACH; modelagem de acessibilidade, com Reach e Attraction Reach; avaliação morfológica pelo iCam 2.0; questionário estruturado, com 242 respostas válidas; e contagens sistemáticas multinível no entorno da Rodoviária. Os resultados evidenciam que boa posição configuracional não garante boa caminhabilidade material, nem explica isoladamente os fluxos observados, sobretudo devido à força da Rodoviária como atrator metropolitano excepcional. A desigualdade socioespacial do pedestre organiza-se predominantemente como reforço cumulativo: posição na rede, tempo de deslocamento, condição socioeconômica e acesso a oportunidades tendem a se sobrepor. Nesse quadro, a contradição brasiliense da mobilidade urbana aparece como exceção analiticamente relevante, e não como regra dominante. Como síntese analítica, propõe-se o Índice de (Des)vantagem Socioespacial do Pedestre (IDSP), que ordena as Regiões Administrativas do Distrito Federal segundo graus de vantagem e desvantagem socioespacial. A tese conclui que o potencial estruturado pela forma urbana não se converte automaticamente em apropriação efetiva dos caminhos: o espaço pode ser comum, mas sua apropriação permanece desigual.